Sobre saúde mental e vida pós-doutorado

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O texto a seguir é um breve relato da minha experiência pessoal que tive vontade de compartilhar para deixar registrado e não me esquecer com o passar dos anos.


Observação importante: esse texto não pretende ser de forma alguma um aconselhamento. Se sente que precisa de ajuda, procure um profissional.


Logo depois que terminei o doutorado em 2015, passei para uma seleção de pós-doutorado na mesma instituição. A minha intenção era manter a parceria com o co-orientador dos EUA e continuar fazendo pesquisa enquanto não tinha uma posição formal como professora/pesquisadora. Inicialmente a vaga era para 2 anos.

O que eu não sabia era que no final do primeiro ano eu já estaria exausta. Não escrevi sobre isso na época pois não conseguiria olhar de fora como consigo hoje. Na época eu só pensava que não dava mais para continuar e conversei com os envolvidos do programa de pós-graduação e fiz tudo o que eu podia fazer em um ano e pedi para que o contrato não fosse renovado para o segundo ano. (Tenho que agradecer a todos os colegas que entenderam, apoiaram e me ajudaram abrindo espaço para a participação nas suas aulas da pós e permitindo que eu apresentasse um seminário sobre o que eu tinha feito naquele ano.)

Depois de passados 5 anos de tese defendida e 4 desse episódio, consigo entender que eu precisava de um tempo depois de tanta dedicação excessiva à carreira e precisava cuidar da saúde mental.

Na época que encerrei aquele postdoc eu tentei três concursos em duas Universidades Federais distintas e fui reprovada nos três. Responsabilizo meu próprio estado mental por não ter tido sucesso em nenhum deles.

Mais ou menos um mês depois do encerramento do pós-doutorado, pude respirar um pouco e participei de outro processo seletivo, só que para um centro universitário. E dessa vez fui aprovada. Tive a oportunidade de retornar a instituição em que fiz minha graduação, agora como professora. Fui colega dos meus professores! Isso me fez tão bem. Eu diminui por um tempo o ritmo de trabalho e passei a dedicar mais tempo a pessoas amigas e familiares! Isso foi essencial! Quando decidi encerrar o pós-doutorado e abrir mão da bolsa eu não tinha perspectiva de nada. Dei um salto de confiança pois sabia que poderia contar com minhas reservas por um tempo e nem foi necessário pois logo apareceu essa oportunidade.

Dois anos depois, eu tive coragem de participar de um concurso novamente. (Um parênteses é importante aqui. Eu estava feliz como professora no centro universitário. Mas a principal razão de ter feito doutorado foi porque eu buscava estabilidade na carreira de ensino e pesquisa e, para isso meu objetivo era obter aprovação em concurso para uma Universidade ou Instituto Federal.  Eu pausei as tentativas depois de não ter sido aprovada algumas vezes mas, depois de atuar esses dois anos como professora no ensino superior e continuar a ter a certeza que era isso que gostaria de continuar fazendo, recuperei a confiança pra tentar os concursos de novo).

Eu me inscrevi em um concurso em 2018, estudei, e… não fui fazer a prova :/ eu sei, nesse ponto da história eu também achei que iria. Mas no fundo ainda tinha medo da rejeição e de ser reprovada novamente.  Eu não dei muitos detalhes acima, mas um dos processos que eu havia tentado em 2016 eu tinha passado na primeira fase e fui a única a não passar na segunda e, aquilo me abalou muito. Depois entendi que foi melhor não ter passado para aquela área. E descobri também, que tinha uma parte de mim que tinha medo de passar! Sim, de ser aprovada, entendi que eu não queria assinar uma sentença de ter que fazer a mesma coisa o resto da vida! Percebendo que tinha todos esses pensamentos pude racionalizar e ver que conscientemente eu sabia que não era bem assim que as coisas funcionam! Mas precisei contar com ajuda de terapia para entender que havia muitas crenças no subconsciente que me atrapalhavam em vários setores.

Dessa vez eu decidi que não iria apenas tentar. Eu me sentia capaz, me preparei para dar aulas sobre todos os temas do edital, fiz as provas e passei. Fiquei muito feliz com o resultado pois era o que eu queria e estava me preparando há anos!!!

No início de 2019, já como professora 🙂 eu estava pensando em como seria bom expandir os horizontes e fazer novas parcerias. E lá para Abril uma oportunidade apareceu. Foram muitas negociações e burocracia até eu chegar aqui no final do ano para um segundo pós-doutorado. Dessa vez, como sou professora em uma Universidade Federal, de acordo com a legislação posso me afastar por 12 meses para capacitação de pós-doutorado e, portanto, sabia que dessa vez seria só um ano mesmo. O tempo está passando rápido e quando olho para trás me sinto satisfeita com o que consegui fazer até agora nesse projeto e olho pra frente e vejo que ainda tem muito a ser feito.

Dessa vez, faço o pós-doutorado em outro país e, no momento que começo a escrever esse texto, estou me sentindo cansada de novo. Um trabalho novo e, portanto um desafio novo. Apesar de saber que eu tenho o perfil para a vaga e ter tido treinamento e preparação necessários para estar aqui hoje realizando esse trabalho, tenho aprendido muito todos os dias. Preciso estudar muito todos os dias. É um trabalho muito mental. Como o professor orientador daqui sempre diz, nesse tipo de trabalho não cansamos fisicamente mas cansamos muito mentalmente! Estamos sempre estudando e pensando em novas soluções e isso desgasta bastante. Por isso é importante descansar e se distrair também.

Hoje acredito que ficamos cansados, desanimados, porque esquecemos o porque estamos fazendo o que estamos fazendo. E também porque esquecemos que é importante descansar. Estou escrevendo esse texto para lembrar algumas coisas que passei para chegar até aqui. Como eu quis e como foi difícil em vários momentos. Se alguém ainda estiver lendo talvez seja um lembrete para essa reflexão. E no meu caso particularmente um lembrete para comemorar os sucessos pois tenho dificuldade de celebrar as conquistas. Para algumas pessoas essa jornada é mais difícil e para outras mais fácil. Temos que lembrar disso e não esperar que todos sejam iguais e que todos tenham o mesmo desempenho. Simplesmente porque não temos todos a mesma base. Cada pessoa parte de um ponto diferente. Esse é um relato da minha experiência pessoal e do meu estado mental e de como eu sinto que esse estado mental influenciou e continua influenciando a minha carreira.

Dessa vez, um ano parece que está passando muito rápido. Ou talvez eu esteja num estado mental melhor. Dessa vez estou feliz. Cansada e feliz.


Se tiver interesse em estudos sobre influência da saúde mental no trabalho em geral e também mais especificamente na área acadêmica, seguem alguns links:

  1. Artigo (em inglês) sobre saúde mental na área acadêmica que comenta entre outras coisas sobre o estigma de se falar sobre saúde mental: https://doi.org/10.36866/pn.115.32
  2. Artigo (em inglês) que comenta que desde 2019 a OMS reconhece a síndrome de burnout como fenômeno ocupacional e da importância de “desestigmatizar” o assunto na área acadêmica: https://www.wiley.com/network/archive/how-do-we-address-the-state-of-mental-health-in-academia
  3. Artigo (em inglês) que mostra como a saúde mental pode ser causa de desemprego de forma geral, esse não é específico sobre a área acadêmica: https://dx.doi.org/10.1186%2F1471-244X-13-144
  4. Levantamento de fatores de estresse na UFLA (em português): https://www.researchgate.net/publication/311066049_FATORES_DE_ESTRESSE_DOS_ALUNOS_NA_POS-GRADUACAO_DA_UFLA

Se souber de mais referências interessantes em português (vídeos também) pode enviar comentário que adiciono à lista 🙂


Ps: Quando comecei a escrever esse texto não sabia porque resolvi fazê-lo justo hoje mas, depois descobri que comecei a escrever no dia 08 de Julho, dia nacional da Ciência no Brasil então aproveito para fazer um agradecimento a todos que fazem ciência no nosso país em todas as áreas.


Outro Ps: Esse ano está tudo muito diferente, passei por dois meses de total isolamento na Itália, mantendo a rotina de trabalho de casa. Nesse momento em que escrevo, as Universidades daqui estão começando a reabrir as portas e o primeiro semestre foi de aulas on-line. Como o laboratório que fico alocada é dentro de um centro de pesquisa de um hospital já voltamos a trabalhar presencialmente adotando todas as medidas de segurança e distanciamento desde a segunda quinzena de Maio e agora observo de longe as decisões (e muitas vezes a falta delas) no Brasil. No dia de hoje não sei qual o cenário que me espera na minha instituição quando eu retornar. Mas sei que estou com saudades de todos e pronta para o que estiver me esperando.

2 comentários sobre “Sobre saúde mental e vida pós-doutorado

  1. Oi Bárbara,
    Relato profundo desta fase de intensa pressão.
    Lembro-me de, ainda estudante de doutorado da modelagem-ufjf, ter assistido seu seminário do 1° pós-doc.
    Parabéns pelas vitórias e superações.
    Abraço,
    Hernando.

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